Incompletude e Arte Seguir o Blog!
15/07/2018. HELIO RODRIGUES
Esperar por alguém ou alguma coisa que nos complete pode ser uma das maiores fontes de frustração. Não há completude dentro, muito menos fora de nós. Somos dois lados quase sempre em busca de uma unidade impossível. É preciso aceitar que somos regidos predominantemente por um desses lados, mas que não podemos nos impedir ou sermos impedidos de circular entre eles. A ideia de lidarmos apenas com o nosso lado socialmente aceito, ou seja: o lado considerado certo, bom, bonito, correto... enfatiza e fortalece em nós o sentimento de incompletude sem motivo, que com o tempo tende a nos adoecer e desequilibrar. Somos mesmo constituídos por uma parte aceita e uma parte rejeitada pela sociedade. Ao nos rendermos a isso, nos forçando a acreditar que podemos nos equilibrar sobre apenas um dos nossos lados, certamente em algum momento nos desequilibramos, perdemos os contrastes pela ausência dos opostos ou adoecemos acreditando não existir razão para isso. Quem sabe a saúde só exista na busca e não na certeza de que é possível um encontro dos opostos? A incompletude assim como a dinâmica que é produzida pelos opostos costuma ser a energia que instiga adultos e crianças a pesquisas e investigações capazes de produzir descobertas. O fazer e pensar a arte amplia a inteligência, abre espaço para a opinião e a crítica, levando a criança ou o adulto à revisão de valores já estabelecidos pela sociedade. A arte nos reintegra, quando faz da incompletude, da falta e do vazio seus argumentos. A verdade é que não há diálogo sem conflito, não há arte sem conflito e sem opostos. Ela dialoga com eles e entre eles. Talvez os conflitos levem o autor a processos mais conturbados, mais dolorosos e por vezes até desestruturantes; já os opostos parecem carregar menos sofrimento por facilitarem os processos reflexivos e esses processos, por sua vez, tornam mais conscientes e menos sofridas as ações artísticas. A música, a poesia, o cinema, a literatura, a dança, o teatro, as artes visuais ou qualquer outra manifestação artística constrói, questiona e modifica sua estética justamente com a ajuda dos opostos ou dos conflitos. Se fossemos completos, não precisaríamos ser sociais, ou seja, não precisaríamos do outro. Provavelmente não seríamos sensíveis e portanto não existiria a arte nem a criatividade. Tudo estaria já dito e, a arte, essa linguagem do indizível, não precisaria existir para viver tentando a completude.
Tags: arte-educação






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