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30/08/2009. HELIO RODRIGUES
[atualizado em 24/04/2017]
Ilustração de Thomaz Simões e sua filha Stela (5 anos)
São muitos olhares dissimulados, por vezes com aparência arrogante e de pouco caso ou até mesmo atitudes agressivas que escondem uma infância engessada. Engessar-se pode ser um recurso, uma proteção quando uma estrutura se encontra débil ou já rompida. Pode ser também uma maneira de manter a infância como algo não pertencente a ela, já que esse período pode parecer fragilizador para crianças inseridas num meio repleto de injustiças e violências. Para crianças que vivem à margem da sociedade formal, a infância pode significar um estado de perigo porque pode vitimá-las através das brechas de ingenuidade e pureza que naturalmente caracterizam esse período da vida. Ser criança, especialmente num meio destituído de condições ao menos razoáveis de acolhimento e segurança, pode fazer desse indivíduo um alvo fácil do sofrimento. Dissimuladas, ou vivendo como adultos prematuros, se afastam do criativo, escondem desejos e não se permitem levar pela ousadia de um sonho. Tudo que se configura abstrato parece ampliar a insegurança de suas vidas; por isso elas se lançam na concretude. Em meio às muitas estratégias de sobrevivência social, uma das que são constantemente observadas é a simbiose. O projeto social “Eu sou” tem observado e interagido com variadas formas de simbioses. Muitas crianças, nos primeiros contatos com o projeto, parecem não chegar sozinhas, formam como que duplas, ou mais, de apoio. Decidem e fazem escolhas sempre juntas durante as aulas e, claro, construções, desenhos, esculturas e pinturas iguais. A forte sensação que temos sobre esse comportamento é: “Se eu sou meia pessoa para escolher e decidir, me junto a outra meia pessoa e, quem sabe assim, eu possa construir uma pessoa inteira?”. Enfraquecidos pela constante inferiorização e desvalorização de suas potencias, as vítimas desse sistema lutam por suas sobrevivência articulando associações, como se pudessem realizar formações genuinamente individuais “de dois” ou mais. Assim agem nossos pequenos simbióticos, compactuando vontades aparentemente tão iguais. Dessa íntima relação “dois em um”, por vezes “três em um”, e até mais como no caso das galeras, não podemos esperar opiniões ou desejos individuais. Até a simples escolha de uma cor ou um formato de papel passa por um filtro de olhares entre os simbióticos, que pode autorizar ou negar, antes de uma decisão final. Os produtos artísticos que colhemos nessas condições são quase todos estereotipados devido à impessoalidade que oferecem os modelos prontos. Isso não significa dizer que esses produtos não possam carregar simbologias próprias. Assim como esses indivíduos as simbologias são dissimuladas, embaçadas por essa aparente impessoalidade. Mas há luz no fim desse túnel. A característica sedutora da arte faz romper essas defesas permitindo a essas crianças e jovens viverem o prazer de se descobrirem em suas particularidades e potências conforme fazem contato com o legítimo. A partir desse natural fortalecimento, rompem-se as simbioses, dando então início à construção de suas verdadeiras identidades. Ironicamente, apesar de toda a resistência às fantasias e ao imaginário que tanto caracteriza essa condição, com a arte autoestimas são fortalecidas fazendo com que esses indivíduos acabam abandonando o lugar da fragilidade e transformando a criatividade em recurso de defesa frente a essa mesma sociedade que tornava invisível as suas existências. Apesar da sensação de segurança que oferecem as concretudes, o verdadeiro fortalecimento é obtido quando se estabelecem relações com as subjetividades que permeiam e constituem a arte. Afinal, sujeitos são constituídos por elas.
Tags: arte-educação, relações socioemocionais






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