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19/09/2018. HELIO RODRIGUES
Para professores que lidam com os pequenos, todos os assuntos que circulam entre desejo, ilusão e criatividade, costumam esbarrar numa dúvida: Permitir a fantasia ou "dizer a verdade"? Mas afinal, papai Noel existe? Normalmente contamos histórias com olhar, tom de voz e até vocabulário diferentes do que usamos quando simplesmente relatamos acontecimentos. A contação de histórias sempre carrega o famoso “era uma vez...” nem que seja de forma indireta. A imaginação e as fantasias escorrem naturalmente para fora dos pensamentos concretos. O desenvolvimento da inteligência e as questões emocionais precisam desse transbordamento. É assim também que elas se desenvolvem. A ficção se caracteriza por não descrever fatos. Ela inscreve a imaginação no pensamento e assim promove as fantasias. Já relatar uma fantasia, é mentira, engodo, quase perversidade, não vale. Em condições saudáveis também não “relatamos” sobre a existência do “papai Noel”, podemos contar alguma história sobre ele com tom de fantasia e o resto é de quem ouve, desenvolve as suas próprias fantasias ou não acredita e ponto final. Considerando a dura realidade de algumas crianças ou a pouca infância de tantas (independente do nível sócio econômico), sempre acho um lucro para elas poderem imaginar. “Era uma vez...” é um pouco como: “Assim poderia ser...” Uma boa aula de artes deve justamente promover o resgate do imaginar, criar até para que se possa desejar o indisponível. Uma aula boa de artes pode ajudar na falta de quintal, na falta de tempo. Ela pode e deve se contrapor à matéria. Pode salvar. É uma pena que o papai Noel de fato não exista, mesmo assim não impede que ele nos salve ao menos por um dia dos outros 364 com tão pouca fantasia. Com ou sem um papai Noel, é importante que toda criança possa também ser morcego, fada, monstro, capitão gancho, borboleta, cavalo, passarinho... Afinal, todos nós temos muito a enfrentar, e todos esses seres que povoam a nossa imaginação podem ser de grande ajuda. Como artista e educador, acredito que mesmo quando quebramos o encanto de uma criança em prol do "não quero te enganar”, o encanto se refaz tão logo seja necessária uma mágica salvadora. Para isso, basta o poder criativo. Esse sim é salvador. Certa vez, num grupo de crianças de 5 anos, havia um menino chamado Rafael. Tinha um histórico familiar e escolar bastante complicado. Durante meses nas aulas de arte parecia difícil a sua concentração e até interesse. Era agressivo e fazia questão de ver a vida da forma mais concreta, portanto, a imaginação tão necessária na arte fazia muita falta para que ocorresse conexão. Até uma vez em que ele começou a fazer vampiros com argila. Em todas as aulas esse era o seu tema, até o dia em que o "vampiro” era o próprio Rafael; pulou no meu pescoço com dentes de plástico que ele havia trazido de casa, babou na minha roupa e disse: - É aqui que eu me alimento! Ele tinha razão, é tudo verdade!
Tags: arte-educação, criatividade, fantasia, imaginação, imaginário, relações socioemocionais, sensibilidade






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