A CRIANÇA E O ARTISTA Seguir o Blog!
14/11/2017. HELIO RODRIGUES
Diego (8 anos, aluno do curso Arte Conecta)
“Crianças produzem arte ou essa é uma linguagem exclusiva dos artistas?” É preciso pensar que uma característica da arte é a sua não função, ao mesmo tempo em que paradoxalmente aceita inúmeras definições como por exemplo: uma linguagem que se mantém paralela à linguagem verbal. Quero dizer que muitas vezes a linguagem artística parece complementar a palavra, mas também em muitos casos, como na literatura, ela faz da palavra a própria arte. Puramente verbais ou artísticas essas duas linguagens nunca se fundem, mas se beneficiam como acontece com as relações que são criadas entre o social e o emocional. Talvez a linguagem verbal descreva percepções e a linguagem artística inscreva significados. A verdade é que todos nós, crianças ou adultos, podemos ser poéticos sem sermos nomeadamente poetas. Podemos pintar, desenhar... sem sermos artistas plásticos. Podemos nos deixar levar pela música, criar rimas e sons porque somos musicais, mas não necessariamente músicos. A arte é uma possibilidade de ampliação da vida, uma forma de sentir, inspirar. Na infância ela é uma condição para a existência plena e que deixa marcas que irão beneficiar as crianças quando se tornarem adultas. Ser ou não um artista é uma escolha, identificação; uma necessidade de alguns, mas sem dúvida um meio particular de interação entre o homem e o mundo. Há uma questão relacionada ao tempo e que caracteriza a arte das crianças. Quanto menores elas forem, mais elas trabalham com as situações do presente. Até os 6 anos valorizam muito o momento. Talvez por essa razão, nessa fase, elas não se apegam tanto aos seus produtos. Em minutos, algumas horas ou em poucos dias suas produções artísticas perdem o interesse. A linguagem artística nos pequenos é muito dinâmica, a necessidade de experimentar é naturalmente muito premente. Seria algo como: “Vivo e experimento hoje, algo que me representa ou me dá prazer agora.” Já os artistas consideram o passado e até se estruturam nas experiências vividas, para agirem artisticamente no presente. Costuma-se dizer que os artistas preveem. O que significa dizer que também se deslocam para o futuro. Criatividade Processos criativos são encontrados em indivíduos que criam ideias, trazem soluções, ampliam possibilidades porque não pensam ou enxergam de maneira ordinária. Cientistas, designers e muitos empreendedores costumam ser indivíduos que fazem uso da criatividade e, através dela encontram soluções simples para situações que parecem complexas e por vezes soluções extraordinárias para coisas e situações comuns. Mas não podemos desconsiderar que o mentiroso é um criativo, mas possivelmente por se manter aprisionado na insegurança ou por idealizações inalcançáveis. O mentiroso não realiza, não produz, apenas imagina e diz ser verdade. Sob o meu ponto de vista, a mentira é uma denominação que só cabe aos adultos, porém, indivíduos mentirosos costumam ser infantis, ou melhor, imaturos. Algumas crianças confundem ou misturam propositalmente a fantasia com o desejo e, muitas vezes, quando estão frente a uma realidade muito dura, dolorosa ou simplesmente indigesta, inventam e se apegam a uma história que pareça solucionar tudo aquilo. Não significa dizer que essas crianças mentem, apenas criam uma outra realidade, uma outra atmosfera para darem conta ou até sobreviverem. Os processos imaginativos são muito ricos e estão bem mais presentes na primeira infância e, infelizmente, perdem espaço e importância com o passar dos anos. No entanto é a criatividade, que na fase adulta produz talentos, indivíduos que se apresentam diferenciados nos meios profissionais. A criatividade é uma facilitadora para a revitalização de ideias e deduções. Apenas a repetição do conhecimento não basta. Indivíduos distantes do exercício da criatividade costumam investir num excesso de referências para se acreditarem estruturados, ou investem na memória para que nela caibam as afirmações que colecionam. Arte Assim como na criatividade, os processos artísticos também acontecem à partir de um olhar extraordinário sobre o mundo externo nutrido pelo interno. É a partir do meio interno constantemente revisitado que, tanto os artistas profissionais quanto as crianças fazem seus registros. A verdade é que ambos, quando envolvidos em suas subjetividades, são muito semelhantes porque produzem ações estimuladas pela relação entre o interno e o externo. Pode-se dizer ainda que o produto artístico resulta da fusão entre esses dois mundos. Processos artísticos pertencem ao mais legítimo do indivíduo e por assim ser, se apresentam muito próximos do único. Artistas não trazem soluções; produzem uma espécie de reflexão continuada, fazendo com que quase toda obra, mesmo as que são produzidas por materiais ou condições efêmeras, traga em si mesma algum tipo de permanência através de suas múltiplas e continuadas interpretações. Por ser o homem um constante questionador da própria finitude, a arte é também sua principal companheira desde o princípio de tudo. Pode-se dizer que ela é também a infinitude possível.
Tags: arte-educação






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